Na Síria, Obama e Al-Qaida compartilham a cama

Shamus Cooke

A Portuguese translation of How Obama and Al-Qaeda Became Syrian Bedfellows.

Para presidente que está executando a “guerra ao terror” de Bush contra a Al-Qaida e “forças associadas” [1], parece estranho que o presidente Obama tenha escolhido para alvo de “mudança de regime” o governo secular sírio.


Igualmente estranho é que o mais forte aliado militar de Obama em solo sírio – a força combatente mais efetiva contra o governo sírio – seja a Frente Jabhat al-Nusra, grupo que já se declarou afiliado da al-Qaida e que luta para converter a Síria em estado extremista islâmico, sob uma versão fundamentalista da lei da Xaria.

É difícil saber exatamente como al-Nursa recebeu suas armas, mas não é difícil supor, com boas chances de acertar. Por exemplo, o New York Times explicou (25 de março de 2013) em detalhe como a CIA está pondo em prática uma massiva operação de tráfico de armas que já canalizou milhares de toneladas de armas da Arábia Saudita e Catar, para a Síria:

O papel da CIA na facilitação dos embarques [de armas] deu aos EUA um certo grau de influência sobre o processo [de distribuição das armas] (…) Funcionários norte-americanos confirmaram que altos funcionários da Casa Branca são regularmente informados sobre os embarques [das armas].

Para onde essa massiva operação de tráfico de armas encaminha as armas? Questão importante a investigar é: quais os “rebeldes” que recebem armas na Síria e quais não recebem?

O The Guardian noticia em 8 de maio 2013:

Tema recorrente é a falta de armamento e de outros recursos, no Exército Sírio Livre, comparada à fartura que se vê na [jihadista] Jabhat al-Nusra (…) ‘Se você se junta à Frente al-Nusra, sempre há uma arma à sua disposição, mas as brigadas do Exército Sírio Livre não conseguem nem balas para seus combatentes’ (…) 3 mil homens do Exército Sírio Livre já se juntaram à Frente al-Nusra nos últimos poucos meses, sobretudo por causa da falta de armas e munição (…). Os combatentes da Frente al-Nusra raramente recuam por falta de munição (…).

Embora seja difícil saber se as armas traficadas pela CIA vão diretamente ou indiretamente para a Frente al-Nursa, é extremamente provável que as armas estejam sendo entregues diretamente em mãos de primos ideológicos da al-Nursa, porque já se sabe que os “rebeldes” sírios estão hoje sob completo controle dos extremistas islamistas.

Por exemplo, quando a revista The Economist publicou um perfil dos mais importantes grupos que lutam na Síria [“Who’s Who in the Syrian Battlefield” /Quem é quem no campo de batalha na Síria], constataram, com lástima, que o único grupo não islamista importante estava nas áreas curdas, que é zona virtualmente autônoma. Quando ao grupo combatente secular apoiado pelos EUA, chamado “Supremo Comando Militar”, a revista The Economist teve de conceder que “na prática, tem mínimo controle em campo”. E não esqueçamos que a The Economist trabalha incansavelmente a favor de intervenção militar, por EUA-Otan, na Síria!

Também o New York Times confirmou que os extremistas controlam completamente todo o campo “rebelde”:

Em lugar algum, da parte da Síria controlada pelos rebeldes, vê-se qualquer força secular cuja presença se deva registrar.

Assim se vê que essa minoria de combatentes seculares não estão no controle da guerra civil e não chegarão ao poder, caso Assad seja derrubado. Em vez disso, sem Assad, os revolucionários sírios honestos cairão imediatamente vítimas de extremistas, os quais, também imediatamente, tratarão de livrar-se de seus aliados de antes.

Vê-se agora claramente que a política externa de Obama para a Síria está incentivando ativamente o terrorismo. Várias das áreas ainda controladas pelos “rebeldes” na Síria são hoje paraísos seguros para terroristas, e tem havido centenas de atentados terroristas contra o governo sírio, muitos dos quais contra áreas civis.

Enquanto os EUA fazem chover armas nas áreas controladas por jihadistas, os EUA também fingem não ver as atrocidades cometidas pelos seus “rebeldes”, que são fartamente documentadas em Youtube, documentação que inclui uma multidão de crimes de guerra, degola, execução de grupos de prisioneiros, limpeza étnica e o recente episódio em que um afamado comandante “rebelde” faz-se filmar quando mutila o cadáver de um soldado sírio e come-lhe o coração. Vídeo a seguir:

Ao minimizar a barbárie, o governo Obama afirma e comprova que continuará, posto que os extremistas estão sendo fortalecidos pelo apoio dos norte-americanos e protegidos pela imprensa-empresa nos EUA, contra quaisquer pressões, inclusive políticas, internacionais.

Uma pergunta que a imprensa-empresa norte-americana nem pensa em propor é: De onde vêm esses extremistas islamistas e por que estão na Síria? A oposição sunita dentro da Síria sempre foi, historicamente, moderada. Deve-se concluir que os extremistas não são sírios: são estrangeiros.

A fonte ideológica de todo aquele extremismo são figuras religiosas da Arábia Saudita e aliados, que usam o Islã como ferramenta política para agredir nações “não amigas” da Arábia Saudita e dos EUA. O mais claro exemplo disso, no que tenha a ver com a Síria, foi a Fatwa (uma declaração religiosa oficial, com peso de lei) lançada por 107 doutores islamistas que denunciam o governo sírio e ordenam que os muçulmanos lutem contra ele. É declaração que estimula a jihad, embora a palavra não seja explicitamente citada. A declaração conclui:

É dever de todos os muçulmanos apoiar os revolucionários na Síria [contra o governo sírio] (…), para que completem com sucesso sua revolução e alcancem seus direitos e sua liberdade.

A hipocrisia dessa declaração é quase patente demais: os muitos sauditas que assinam o documento e clamam por “liberdade” na Síria, não clamam por qualquer liberdade na Arábia Saudita, de longe o país do mundo onde há menos liberdades.

Com a Arábia Saudita e o Catar a fornecer armas aos “rebeldes” sírios – com a ajuda da CIA – os religiosos sauditas ligados ao regime saudita dão-lhes apoio religioso/político, ao mesmo tempo em que desencaminham levas e levas de muçulmanos devotos a marchar contra a Síria para atacar um país de muçulmanos. Assim inventam gigantescas divisões sectárias, como já se veem, em todo o mundo islâmico.

A vasta maior parte desses confrontos sectários estão sendo exportados pela Arábia Saudita, que financia escolas islamistas radicais em todo o Oriente Médio, para as quais atraem os miseráveis de todos os países da Região, oferecendo-lhes alguns serviços sociais básicos inexistentes nos países onde implantam suas escolas, porque os respectivos governos não podem – ou não querem – oferecê-los. Há capítulo muito informativo sobre essa dinâmica, no excelente livro de Vijay Prashad, A People’s History of the Third World/Uma história do povo do terceiro mundo.

Atualmente, os países liderados por EUA-Otan discutem se devem ou não armar com armamento sofisticado os “rebeldes” extremistas que dominam porções do território sírio. O governo Obama está pressionando a União Europeia para que levante o embargo à venda de armas para a Síria, de modo que nova catarata de armas possa desabar sobre o país (aparentemente, as operações da CIA ainda não afogaram completamente a Síria, com suas armas).

Em resposta à questão de “levantar o embargo”, Oxfam respondeu com inteligência:

Enviar armas para a oposição síria não nivelará o teatro de guerra. Em vez disso, criará hordas de extremistas armados até os dentes, cujas vítimas são os civis sírios. Nossa experiência de outras zonas de conflito ensina que essa crise só se aprofundará e se estenderá no tempo, se mais e mais armas chegarem ao país.

Um diplomata da União Europeia retrucou com firmeza, ao ouvir a declaração do governo Obama, de que podia assegurar que as novas armas não cairiam “em mãos erradas” na Síria:

Seria o primeiro conflito em que alguém diz que estaria criando a paz, fornecendo cada vez mais armas. Se pensam que sabem até onde as armas chegarão, seria a primeira guerra da história em que alguém saberia antecipadamente. Já aconteceu na Bósnia, no Afeganistão e no Iraque. Armas não somem. E elas sempre reaparecem onde haja alguém interessado nelas.

Na Síria, todos os que se interessam por manter o conflito interessam-se por mais armas. Outra vez, em primeiro lugar, os extremistas da Frente al-Nursa, reconhecidos como a força mais efetiva dentre as que combatem contra o governo sírio: as armas irão diretamente, portanto, para eles.

Obama já levou a píncaros da mais completa irracionalidade a ideia segundo a qual “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Ao fazê-lo ajuda a produzir uma nova geração de extremistas islamistas que alimentarão para sempre a “guerra ao terror” inventada pelos EUA. A real intenção da Guerra ao Terror não é conter terroristas, mas destruir os estados-nação que se opõem à política externa dos EUA: Iraque e Líbia – como a Síria – eram países sob governos seculares, quando foram invadidos; o Afeganistão foi invadido, apesar de a vasta maioria dos envolvidos nos ataques de 11 de Setembro serem da Arábia Saudita. Nunca houve problemas de terrorismo no Iraque, antes da invasão norte-americana. Tampouco jamais houvera problemas de terrorismo na Síria, antes de entrarem em cena os “rebeldes” apoiados pelos EUA.

É absolutamente óbvio para muitos norte-americanos, que Síria e Irã estão no topo da lista-de-matar de Obama: muito acima, como prioridade, que qualquer grupo terrorista. Por isso Obama tolera os terroristas que agem hoje dentro da Síria. Obama os está usando como ferramenta contra os alvos reais: a Síria e, em seguida, o Irã.

O povo sírio tem o direito de decidir, ele mesmo, sobre o próprio futuro. Os EUA são irremediavelmente incapazes de “ajudar” alguém, usando meios militares. Para prová-lo, aí estão, dolorosamente, o Afeganistão, o Iraque, a Líbia. O movimento global antiguerra tem de exigir:

“EUA, fora da Síria!”
Shamus Cooke is a social service worker, trade unionist, and writer for Workers Action. He can be reached at portland@workerscompass.org