O momento Bush de Obama – A mentira da guerra “limitada” à Síria

Shamus Cooke

A Portuguese translation of The Lie of a Limited War Against Syria.

Os ratos abandonam o navio dos ratos. Nem os mais fortes aliados de Obama aguentam o fedor das mentiras que são a ‘base’ do esforço de guerra contra a Síria. Até a Inglaterra, cuja única política exterior é perguntar, “de que altura?” quando os EUA ordenam “pule!”, optaram por não se mexer para ajudar Obama.

Também a Liga Árabe, há muito tempo usada como marionete pela política exterior dos EUA, já se dividiu. O Conselho de Segurança da ONU – depois de aprender, na Líbia, a não confiar em Obama – também se recusa a autorizar o ataque à Síria. Restou a França – ex-patrão colonial da Síria – para segurar a máscara de “importante” nação europeia a dar ao ataque o leve verniz de apoio “internacional”. Mas a insubordinação da Inglaterra certamente ecoará na opinião pública francesa, que elegeu um presidente “socialista”, presume-se, para que não metesse o país em mais um pântano de guerra dos EUA.

Obama não ofereceu prova alguma de que o governo sírio foi responsável pelo mais recente ataque com armas químicas. Carla del Ponte, inspetora da ONU, disse claramente que os “rebeldes” apoiados pelos EUA já haviam sido responsáveis por outro ataque com armas químicas, anterior. Logo, se vale a culpa só presumida, normal seria culpar primeiro os “rebeldes”.

Apesar de outras nações terem imediatamente reconhecido no canto de guerra de Obama um plágio do que o presidente Bush já cantou e dançou para atacar o Iraque, porções significativas da opinião pública norte-americana deixaram-se seduzir pela cantoria melosa de Obama. O refrão tranquilizador que repete “ataque limitado”, que durará “horas, não dias”, teve efeito sedativo nos nervos de muitos norte-americanos, aos quais a imprensa-empresa só “informa” que a Síria precisaria só de umas palmadas porque se “comportou mal”; e, em seguida, tudo voltará ao normal. Nenhum soldado dos EUA morrerá. Coisinha pouca, praticamente nada.

Mas é claro que nenhuma ação militar dos EUA no Oriente Médio será jamais coisa pequena: sempre será ação gigante.

A cada nova guerra que os EUA inventam naquela região, as tensões sobem mais um pouco, aumentam os procedimentos de autodefesa, formam-se novas alianças locais para defender quem os EUA ataquem. Nações não alinhadas com a política externa dos EUA [leia-se: com as guerras dos EUA pelo planeta (NTs)] – e são muitas – estão desesperadas para conter a marcha sangrenta dos EUA pelo Oriente Médio. Os norte-americanos absolutamente não entendem o quanto a guerra do Iraque alterou fundamentalmente o Oriente Médio.

O governo dos EUA é profundamente odiado pela maioria da população naquela vasta porção do mundo por ter destruído o Iraque, que para muitos ali sempre foi uma orgulhosa nação árabe. Atacar outra nação no coração do Oriente Médio, com a qual milhões de árabes também se sentem profundamente ligados, gerará contrarreação massiva, gigantesca.

E nem importa o quanto o ataque seja “limitado”: bombardear nação estrangeira é ato de guerra.

Depois da 2ª-Guerra Mundial, o Tribunal de Nuremberg concluiu que o “supremo crime internacional” cometido pelos nazistas não foi o genocídio nem o holocausto: foi terem feito guerra de agressão, porque esse foi o crime essencial do qual derivaram todos os demais. É claro que os agressivos planos de guerra de Obama envolvem mais que lançar meia dúzia de mísseis contra alguns tanques sírios. Por isso,Obama moveu cinco destróieres da Marinha dos EUA para aquela região.

Também pela mesma razão, é claro – centenas de soldados das Forças Especiais dos EUA e “milícias treinadas” entraram na Síria dia 17/8 – como noticiou o jornal francês Le Figaro.

Especulou-se que a real intenção no ataque contra a Síria seria ampliar a ajuda que Obama tem dado as “rebeldes”, que vêm recebendo massiva ajuda norte-americana na forma de armas, treinamento e dinheiro, já – como noticiou o New York Times – há quase dois anos, mas provavelmente há mais tempo.

É fato que já não se discute que as milícias islâmicas extremistassão a força mais ativa e poderosa na oposição ao governo de Assad; se o governo for deposto, os extremistas islamistas estarão no poder.

Se for lançada campanha “limitada” agora, é absolutamente certo que, adiante, mais bombas norte-americanas virão, porque os extremistas apoiados pelos EUA precisarão de muito mais apoio para derrotar Assad. Para alterar o atual equilíbrio de forças entre os “rebeldes” de Obama já praticamente derrotados pelo exército sírio e o governo de Assad, será necessária campanha massiva de bombardeamento, semelhante à que se viu na Líbia.

Não se deve esquecer a cadeia de eventos na Líbia: depois que os “rebeldes” líbios apoiados pelos EUA começaram a ser derrotados, Obama serviu-se da “ingenuidade” da ONU e declarou que seria preciso “ação imediata” para evitar um massacre de milhares de líbios. A ONU estupidamente acreditou e aprovou uma resolução em termos vagos, sobre “responsabilidade de proteger civis”, [1] que Obama imediatamente usou como pretexto para furiosa guerra de agressão e “mudança de regime”: lançou milhares de bombas sobre a Líbia, com seus jatos bombardeiros que mataram indiscriminadamente militares e civis e destroçaram a nação líbia.

O excelente livro de Vijay Prashad Arab Spring, Lybian Winter, cobre em profundidade aquele conflito.

Depois do exemplo líbio, a ONU ficou vacinada contra as mentiras de Obama. Por isso, a parte mais difícil, hoje, no processo de os EUA inventarem guerra contra a Síria, é começar a guerra.

Depois de começada a matança, só a lógica da própria guerra imperará, o que cria instantaneamente novas dinâmicas não previstas, quase infalivelmente na direção da expansão da guerra. É muito possível que esse traço “não previsto” da guerra seja, exatamente, o que Obama tem hoje em vista.

Por exemplo, qualquer analista militar que esteja em pleno gozo das faculdades mentais espera que a Síria defenda-se. E a Síria pode defender-se com mais eficácia que a Líbia ou o Iraque. O povo norte-americano não está preparado para a resistência dos sírios, porque, até agora, só foi “informado” de que a Síria aceitará submissa o “castigo”, talvez, no máximo com alguns “protestos”.

Mas a Síria tem sistemas avançados de armamentos, e será perfeitamente legal e razoável que o país agredido defenda-se – bombardeando, por exemplo, um destróier da Marinha dos EUA, ou, talvez, Israel – que seguramente estará envolvida, em algum nível, no assalto contra a Síria e, portanto, é alvo militar legítimo. E Israel já várias vezes bombardeou território sírio nos últimos seis meses.

É possível que Obama esteja tentando provocar reação forte da Síria, o que dará aos EUA uma razão pública “real” para escalar a guerra. Qualquer ataque contra a Síria tem também a possibilidade de envolver o Irã no conflito, porque Irã e Síria têm entre eles um pacto de defesa mútua. E esse pode ser o objetivo “de fundo” de Obama: provocar o Irã para que se envolva militarmente, de modo que os EUA tenham afinal o pretexto de que precisam para expandir a guerra para o Irã, que há anos está na mira dos belicistas norte-americanos.

Se a pressão internacional e doméstica forçar Obama a limitar-se, de fato, a um ataque “simbólico” contra o qual a Síria não retalie, então a política exterior dos EUA terá sofrido humilhação histórica, mostrando à vista de todos o declínio do poderio norte-americano no mundo. Mas mesmo um ataque “cirúrgico” cria precedente muito perigoso, abrindo a porta para ataques mais amplos no futuro; esse precedente será inevitavelmente reaberto com qualquer ataque, mesmo “cirúrgico” no futuro próximo.

Um esforço de guerra fraco, dessa vez, tornará o governo Obama ainda mais faminto por guerras da próxima vez, porque nenhum império deixa-se simplesmente apagar da face da Terra sem arrastar na própria queda um oceano de sangue humano.

Se Obama atacar a Síria agora, ouviremos menos mentiras do que quando Bush atacou o Iraque, porque Obama, Prêmio Nobel da Paz, teve a audácia de envenenar, com suas mentiras, o terreno no qual, 50 anos antes, na Marcha sobre Washington, em 1963, falava Martin Luther King, Jr. Ali Obama cantou loas ao grande pacificador, enquanto planejava sua guerra contra a Síria.

Obama já arruinou muito rapidamente sua credibilidade, à moda Bush. Meteu na prisão alertadores como Chelsea Manning – cujo único crime foi revelar crimes de guerra. Agora, prepara um crime de guerra ainda maior contra a Síria. Sua presidência consome-se em fogo e sangue com impressionante rapidez, num incêndio que pode arrastar o país inteiro.

No sábado, 31/8, fez-se um dia internacional de protesto contra a guerra à Síria.

Mais militantes antiguerra que se manifestem nos EUA talvez consigam afundar, sem nenhum tiro, o navio da guerra de Obama.

 

Shamus Cooke is a social service worker, trade unionist, and writer for Workers Action. He can be reached at portland@workerscompass.org