Obama ameaça a China e o Irão

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Shamus Cooke

O declínio do império que a crise sistémica do capitalismo e o aproximar do fim do sonho do «século XXI, o século americano» tornam o mundo mais perigoso. Passadas que foram as palavras de circunstância ditas em período eleitoral, Obama assume-se cada vez com mais evidência como um homem do império, nalguns casos ultrapassando já o desacreditado George W Bush.

A possibilidade de uma nova guerra americana aumentou nos últimos tempos, quando a administração Obama criticou severamente a China e o Irão. O primeiro acto de agressão foi lançado pela Secretária de Estado, Hillary Clinton, que «advertiu» a China de que esta deveria apoiar sanções económicas drásticas contra o Irão (o que constituiria um acto de guerra).

Hillary Clinton disse: «A China será submetida a uma forte pressão para que reconheça o efeito destabilizador que teria um Irão nuclearizado, que fornece uma parte significativa do seu petróleo.»

Isto implica que a China será privada duma fonte maior de energia se não apoiar a política externa dos Estados Unidos – o que equivale, mais uma vez, a um acto de guerra.

Uma provocação militar mais directa ocorreu pouco tempo depois de Obama ter autorizado a concretização de um acordo militar, datado da era Bush, com Taiwan, uma pequena ilha ao largo da China continental e que esta considera como fazendo parte do seu território. Taiwan é um Estado vassalo dos Estados Unidos desde a derrota das forças nacionalistas que fugiram da China logo a seguir à revolução de 1949. Desde essa altura, Taiwan tem sido o bastião das intrigas e agitações anti-chinesas dos Estados Unidos. Obama aumentou recentemente a pressão, aprovando uma venda de 6,4 biliões de dólares de armas a Taiwan, entre as quais: «…60 helicópteros Black Hawk, mísseis de intercepção Patriot, mísseis Harpoon, que podem ser utilizados em terra ou no mar, e dois navios caça-minas renovados» (New York Times, 30 de Janeiro de 2010. )

O mesmo artigo cita um oficial do governo chinês que qualifica, justamente, esta venda de armas como uma «…ingerência flagrante nos assuntos internos chineses, (e) um grave atentado à segurança nacional da China…» Em 1962, quando a URSS forneceu mísseis a Cuba, situada ao largo da Florida, os Estados Unidos interpretaram esse gesto como um acto de guerra.

A reacção da China à venda de armas a Taiwan foi severa, e traduz-se na imposição «dum leque excepcionalmente vasto de represálias… entre as quais sanções contra as companhias americanas que forneceram o material desta venda». Estes fabricantes de armas americanos são multinacionais gigantes que exercem uma enorme influência política na administração Obama e vão provavelmente forçar o governo dos Estados Unidos a reagir ainda com maior agressividade.

A politica de Obama em relação à China revelou-se muito mais agressiva que a de Bush, quando da sua campanha eleitoral Obama tinha prometido uma política externa mais pacífica. As suas promessas soam actualmente como uma farsa. A mesma política hipócrita é utilizada na América do Sul, onde Obama tinha prometido uma «não intervenção», mas depois apressou-se a construir bases militares na Colômbia, perto da fronteira venezuelana, e a dar completa luz verde ao golpe de Estado nas Honduras.

Hillary Clinton ameaçou também a China a propósito da censura da Internet na semana passada, enquanto Obama, por sua vez, se afadigava a provocar a China, encontrando-se com o Dalai Lama, que luta pelo fim da influência chinesa no Tibete.

Recordamos também a recente escaramuça comercial entre a China e os Estados Unidos, ainda presente em todos os espíritos, em que Obama impôs direitos alfandegários sobre as importações chinesas: a China ripostou impondo medidas proteccionistas contra as companhias americanas, o que nos leva directamente ao cerne da questão.

A atitude do governo dos Estados Unidos em relação à China nada tem a ver com o Dalai Lama, com a censura à Internet ou com os direitos do Homem. Tais desculpas apenas servem para assestar alguns golpes diplomáticos, no quadro dum conflito geopolítico mais vasto. As sociedades chinesas, aproveitando o declínio dos meios de negócios americanos, registam uma rápida expansão e Obama, para contrariar este dinamismo, utiliza uma panóplia de medidas que conduzem todas pelos caminhos da guerra.

Há dias, este grande xadrez de manobras comerciais e militares conheceu um perigoso enfrentamento, quando os militares americanos provocaram o Irão. O New York Times explica: «Segundo os oficiais do governo e do exército, a administração Obama acelera o desenvolvimento de novas defesas contra eventuais ataques de mísseis iranianos no Golfo Pérsico, posicionando navios de guerra ao largo das costas iranianas e sistemas antimíssil em, pelo menos, quatro países árabes.» (30 de Janeiro de 2010)

O mesmo artigo cita o General americano Petraeus que admite que «… os Estados Unidos mantêm cruzadores Aegis em patrulha permanente no Golfo pérsico (a fronteira iraniana). Estes cruzadores estão equipados de radares e de sistemas antimíssil modernos destinados a interceptar os mísseis de médio alcance.» O Irão sabe perfeitamente que os «sistemas antimíssil» são perfeitamente capazes de passar ao modo ofensivo – o seu verdadeiro objectivo.

O Irão está totalmente cercado por países ocupados pelo exército dos Estados Unidos, sejam países submetidos a uma ocupação militar massiva – como o Iraque e o Afeganistão – sejam Estados marionetas que albergam bases militares USA. Contrariamente às declarações do Presidente Obama, o Irão está já “contido” no plano militar. O governo iraniano, por repressivo que seja, tem todo o direito a defender-se nestas condições.

É possível que as acções agressivas dos Estados Unidos acabem por forçar o Irão a uma acção militar, fornecendo assim o pretexto de «legítima defesa» ao exército americano, que não está à espera doutra coisa, a fim de apaziguar a cólera da opinião pública americana.
Um outro artigo do New York Times expõe os pontos de vista sobre o Irão, que são partilhados por Democratas e Republicanos. Segundo este artigo: «é altura de o Presidente Obama e outros dirigentes fazerem aumentar a pressão para a aplicação de sanções mais estritas» e «Se o Conselho de Segurança da ONU não agir mais rapidamente, os Estados Unidos e a Europa devem exercer as suas próprias pressões (estratégia de Bush contra o Iraque). Na quinta-feira, o Senado aprovou uma lei que punirá as sociedades que exportem gasolina para o Irão ou que ajudem este país a desenvolver as suas capacidades de refinação (um outro acto de guerra)». (29 de Janeiro de 2010)

O movimento anti-guerra americano deve organizar-se e mobilizar-se para contrariar os planos da Administração Obama. A política de Obama não só imita a de Bush, como as suas consequências poderão ser ainda mais devastadoras, com a real possibilidade duma guerra regional. O Irão e a China têm bem maiores capacidades no plano militar que não tinham o Afeganistão ou o Iraque; uma guerra contra estes países provocaria ainda mais inumeráveis mortes.

Façam voltar as tropas a casa !

Tropas US fora do Médio Oriente !



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